GitHunt
RF

rfaleiro/R-OcorrenciasPoliciais-em-SaoPaulo

Análise de dados de segurança pública de São Paulo (2016-2025). Utiliza web scraping (Python) para minerar relatórios processados da SSP-SP e Data Science (R, ggplot2) para investigar a escalada criminal, migração de delitos e tendências documentadas no estado pós-pandemia.

Análise de Criminalidade no Estado de São Paulo (2016-2025)

github.com/RFaleiro
2026-03-09

1. Proposta

Este relatório fornece uma análise extensa dos dados de segurança
pública do Estado de São Paulo de 2016 até o início de 2025. Ao agregar
mais de 80 métricas distintas de criminalidade, buscamos descobrir
tendências macro, identificar as anomalias de crescimento mais rápido
pós-pandemia e destacar atividades criminosas correlacionadas.

1.1 Base de dados

A extração dos dados é realizada de forma automatizada (via web
scraping
) diretamente do portal da Secretaria de Segurança Pública do
Estado de São Paulo (SSP-SP).

Para coletar o histórico completo ano a ano, o nosso script constrói
dinamicamente a URL de origem das tabelas estatísticas. O endereço base
segue um padrão estruturado onde o ano e o trimestre são
alterados programaticamente na URL:

https://www.ssp.sp.gov.br/assets/estatistica/trimestral/arquivos/{ano}-{trimestre}.htm

Como funciona a montagem dinâmica da URL:

  • {ano}: Varia em um loop de 2016 até o ano atual (2025).
  • {trimestre}: Varia de 01 a 04 (sempre com dois dígitos),
    representando cada trimestre do respectivo ano.

Desta forma, o crawler substitui essas variáveis iterativamente (por
exemplo, acessando a página de dados de .../2023-01.htm, seguida por
.../2023-02.htm, etc.) e faz o download de todos os relatórios,
consolidando todo o histórico em um único grande arquivo para a nossa
análise.

Os relatórios em formato PDF gerados durante a coleta dos dados brutos
podem ser acessados diretamente através deste link para a pasta
data/raw/pdf_ssp_reports/
.

2. Tendências Gerais

A análise exploratória das Tendências Gerais da segurança pública em
São Paulo nos revela dois panoramas bastante claros na série histórica:

  1. A Escalada Alarmante dos Boletins Totais de Ocorrência: Ao
    observar a linha geral do Estado, o período pré-pandemia (2016
    a 2019) mantinha um registro firme na ordem de 705.162 ocorrências
    por trimestre
    . Após um natural e trágico engessamento do número em
    2020 e 2021 pela falta de mobilidade no isolamento dos lockdowns (o
    grande vale no gráfico), houve um rebote dramático: no período
    pós-2022 o número de boletins trimestrais bateu sucessivos recordes,
    se perpetuando numa média absurda de 990.152 registros por
    trimestre
    . O cume desse volume denota um incremento estrondoso de
    +40,4% a mais de ocorrências despachadas rotineiramente perante
    a média histórica pré-crise.

  2. O Crescimento Brando e Descorrelacionado dos Furtos: Por vias
    analíticas opostas, ao insulormos os chamados casos de Furto -
    Outros
    (aqueles de baixa resolução e não enquadrados puramente em
    perfis como veículos pesados), percebemos que o seu padrão sofreu um
    deslocamento bem inferior. A base de dados revela que, antes de 2020
    a média era de 128.597 casos reportados nestas infrações e, mesmo
    após todo o boom de 2023 pra frente, ele subiu de forma contida para
    a base de 140.173 casos. É uma alta de +9,0%.

Isso nos leva a uma conclusão importantíssima do ponto de vista
investigativo: como os furtos simples não cresceram na mesma proporção
desvairada do todo, conclui-se que o avanço crítico de mais de 40%
empurrado no volume macro da Secretaria da Segurança Pública de SP foi
insuflado pesadamente por crimes mais diversificados, ou até ocorrências
atípicas e violentas que fugiram ao controle ao longo dessa mesma linha
de tempo.

2.1 Crimes que mais cresceram

Métrica Média de ocorrências/Ano (Pré-2020) Média de ocorrências/Ano (Pós-2022) Crescimento
Contra a Dignidade Sexual 14,970 27,570 84.2%
Contra o patrimônio 1,152,063 1,803,896 56.6%
Contra a pessoa 474,304 713,229 50.4%
Total de delitos 1,850,511 2,766,427 49.5%
Não Criminais 1,495,679 2,010,436 34.4%
Outros criminais (não inclui contravenções) 109,970 129,669 17.9%
Contravencionais 41,768 48,962 17.2%
Entorpecentes 57,436 43,101 -25.0%

A Explosão da Violência Contra a Dignidade Sexual e Patrimônio

O primeiro gráfico de halteres revelando os perfis agregados por
natureza criminal
explica visceralmente para onde a carga violenta
escorreu após todo o desmembramento promovido pelo fechamento social. O
grande propulsor que mais alavancou os números macabros contra a
sociedade civil paulista foi aterradoramente associado aos Crimes
Contra a Dignidade Sexual
(que inflaram impressionantes +84,2% em
volume absoluto de ocorrências em todo fluxo pós-pandêmico comparado ao
histórico até 2019).

Na sequência do horror, os gigantes demográficos do relatório, como
Crimes Contra o Patrimônio (aumentando +56,6% e puxando uma
brutal volumetria real para casa dos milhões) e os Crimes Contra a
Pessoa
(pesando +50,4% no Estado) atestam uma perda agressiva de
freios em todos os campos da convivência urbana e física, inflando
desproporcionalmente o Total de Delitos que comentamos alhures.

Nota-se também que Entorpecentes foi literalmente a única frente
criminal documentada que cedeu drasticamente (uma queda linear de
-25%). Isso sugere possivelmente um gargalo operacional,
subnotificação investigativa, mudança pesada de comando ou uma forte
alteração das estratégias e focos de operação na atuação flagrante nas
pontas nos últimos anos.

Métrica Média de boletins de ocorrência/Ano (Pré-2020) Média de boletins de ocorrência/Ano (Pós-2022) Crescimento
Extorsão mediante seqüestro (5) 19 177 817.7%
Homicídio culposo por Acidente de Trânsito 3,356 3,951 17.7%
Lesão corporal dolosa 133,105 155,160 16.6%
Homicídio Culposo (7) 3,526 4,099 16.3%
Furto - outros 514,388 560,691 9.0%
Tentativa de homicídio 3,694 3,657 -1.0%
Lesão corporal culposa outras 3,236 3,022 -6.6%
Furto de veículos 101,440 91,863 -9.4%
Lesão corporal culposa por Acidente de Trânsito 84,933 71,603 -15.7%
Tráfico de entorpecentes 47,675 39,681 -16.8%
Homicídio doloso 3,136 2,520 -19.6%
Nº de Vítimas em Homicídio Doloso 3,298 2,628 -20.3%
Homicídio Doloso por acidente de trânsito (10) 39 21 -46.5%
Latrocínio 287 153 -46.8%
Nº de Vítimas de Latrocínio 294 156 -47.1%
Roubo de Carga 9,148 4,748 -48.1%
Roubo de veículos 62,850 31,397 -50.0%
Roubo a Banco 77 5 -94.0%

A Migração do Crime: Extorsões Explodem, Roubos de Alto Padrão
Desabam:**Ao destrincharmos rigorosamente os dados dentro das
tipificações criminais do segundo gráfico, uma radiografia espantosa e
muito singular da sociedade paulista se desenha. O crime organizado
comum operou uma pivotagem brutal no Estado de São Paulo abandonando os
crimes tradicionalmente caracterizados como ‘defesa do patrimônio das
elites e corporações’
e escorrendo para a impunidade do ambiente
digital e da extorsão direta na rua.

O Que Mais Desabou: Houve um colapso gigantesco e estatisticamente
perfeito nas ocorrências que demandam confronto direto contra capital
fortificado e corporativo. A base revela que *Roubo a Banco (derretimento de -94%), Roubo de Veículos (-50%), Roubo de Carga (-48,1%) e até o trágico Latrocínio (-46,8%)
caíram praticamente pela metade em comparação com a rotina paulista antes de 2020. O governo
obteve aparente controle pleno nas vitrines ostensivas de segurança
privada/pública nos redutos de grande patrimônio.

O Que Mais Explodiu (O Novo Custo Brasil): Toda a criminalidade
contida nos muros corporativos buscou uma assustadora compensação no
cidadão civil comum. A tipificação que sofreu o aumento mais alucinante
e bizarro de toda a história da SSP-SP foi a Extorsão Mediante
Seqüestro (o famigerado ‘Golpe do PIX’ / Sequestro Relâmpago)
que
subiu absurdos +817,7% (saltando de 19 casos/ano para
estratosféricos 177 casos anuais mapeados em média). Essa transição do
criminoso saindo da porta do banco para invadir a transação bancária no
celular do refém na rua se provou um pesadelo incontornável.

Paralelamente, o convívio social urbano demonstrou esgarçamento fatal.
Os Homicídios por Acidente de Trânsito cresceram significativamente
(+17,7%, perfazendo em média quase 4.000 mortos registrados sob esse
flagelo anualmente), e a pura Lesão Corporal Dolosa (agressão com
intenção de ferir e brigas generalizadas da rua a lares civis) marcou
uma alta de +16,6%, superando um patamar horripilante de mais de
155.000 vítimas catalogadas por ano frente ao período antes do
isolamento.

2.2 Tendência para crimes contra a Pessoa

A análise específica dos Crimes contra a Pessoa, abordando mortes
culposas e atentas à vida que não se consumaram, traz um contraponto
importante sobre qual perfil de violência está crescendo verdadeiramente
no Estado de São Paulo:

  1. Aumento Consistente dos Homicídios Culposos: Observamos uma
    tendência consolidada de alta nos homicídios culposos (onde não há
    intenção primária de matar, estando frequentemente associados a
    fatalidades sistêmicas, violência no trânsito ou negligência
    imprudente). A série apresentava uma média contida em cerca de 882
    casos
    por trimestre antes da pandemia; porém, a curva cresceu de
    forma contínua a ponto de cruzar, repetidas vezes, a barreira de
    mais de 1.000 mortes/trimestre a partir de 2023. Isso compõe um
    aumento sistemático e não-ignível de +16,3%.

  2. Estabilidade Absoluta nas Tentativas de Homicídio: Em
    contrapartida nítida, as Tentativas de Homicídio (crimes
    violentos, agressões diretas com dolo de matar, mas interceptadas)
    não pioraram estruturalmente. A sua média pré-crise orbitava na casa
    de 924 registros trimestrais, oscilando para exatos 914
    casos/trimestre
    no período recente pós-2022. Essa é uma variação
    achatada de essencialmente -1,0% (estabilidade perfeita).

A união destes dois cenários endossa a lógica discutida na tendência
geral: ao cruzar a não-piora da intenção ativa de matar de um lado e o
salto formidável em vítimas letais de homicídios culposos do outro,
concluímos que a violência clássica e premeditada das ruas paulistas não
avançou massivamente — o perigo e as fatalidades estruturais cresceram
através de vias mais imprudentes/acidentais dentro da sociedade ou
tráfego civil.

2.3 Tendência para crimes contra o patrimônio

Quando passamos a lupa nas estatísticas sobre aquilo que classicamente
se estrutura como a “Defesa do Patrimônio das Elites ou do Capital
Corporativo”, cruzamos com a única frente de segurança que apresentou um
estrondoso e verdadeiro sucesso operacional na última década no Estado
de São Paulo. Se as ocorrências totais estaduais escalaram mais de +40%,
os crimes vitrine não seguiram a mesma sorte:

  1. A Erradicação do Roubo a Banco: O roubo a instituições
    financeiras, que exigia quadrilhas pesadas, logística
    cinematográfica e armas de guerra — além de ferir de morte o capital
    blindado do Estado — desmoronou do mapa de ocorrências de forma
    fulminante. A média pré-pandemia de quase 80 casos por ano desabou
    brutalmente e agora beira a extinção (oscilando em torno de módicos
    5 casos por ano), desenhando um colapso avassalador de -94%
    sobre a modalidade.

  2. A Sangria Estancada no Roubo de Carga e Veículos: Do mesmo modo
    impecável de atuação (muito dependente de rodovias, fiscalizações de
    ponta, seguradoras e policiamento ostensivo), os roubos de carga
    (que escoavam a infraestrutura logística corporativa) e os roubos de
    veículos (motor fortíssimo da insegurança patrimonial padrão) foram
    literalmente cortados pela metade. O eixo temporal denota com
    perfeição a ladeira em inclinação contínua em toda a série: quedas
    perfeitas e simétricas de -48% e -50% em suas volumetrias
    médias, atestando uma política de estado que soube frear, sem
    sombras de dúvidas, as velhas artérias de extração bilionária do
    crime tradicional paulista.

3. Crimes Graves - Estupro

O gráfico de série histórica revela uma pronunciada quebra de padrão
trazida pela pandemia. No segundo trimestre de 2020 ocorreu a maior
queda da série (atingindo apenas cerca de 2.167 casos num único
trimestre), o que reflete a trágica subnotificação gerada pelo
confinamento do isolamento social. Porém, imediatamente após a volta à
normalidade, a curva não apenas retornou à sua média, mas assumiu uma
vertiginosa tendência de aceleração, escalando e quebrando seguidos
recordes históricos até atingir níveis críticos acima de 3.800
ocorrências trimestrais em 2024 e no início de 2025.

3.1 Taxa de crescimento de estupros

O gráfico acima revela que a categoria Estupro de Vulnerável foi o
verdadeiro motor do crescimento criminoso pós-pandemia, saltando
vertiginosamente +31% em relação a 2019 (de 8.487 para 11.118
vítimas/ano). Em contrapartida, as ocorrências comuns de “Estupro”
permaneceram quantitativamente estáveis (apenas +2,3% de aumento),
indicando que o alarmante agravamento estadual decorre primariamente de
violações contra vulneráveis e menores.

4. Quem morre e Quem Mata: A Atuação Policial

A aba que diz respeito ao escopo de confronto ativo de toda a força do
Estado — consubstanciada na junção das métricas vitais das polícias
Civil e Militar simultaneamente — entrega uma leitura sóbria sobre a
letalidade nas ruas.

Diferente do pânico urbano observado nos crimes cibernéticos ou
violência patrimonial nas ruas abertas, O combate letal direto pelo
monopólio da força não cresceu
:

  1. Suspeitos Mortos pela Força Especial: Puxados majoritariamente
    pela Polícia Militar, os civis/suspeitos mortos em confronto direto
    durante o serviço caíram substancialmente nos recortes médios
    desde 2016. Na soma de todas as pastas militares e civis, o Estado
    via historicamente cerca de 660 pessoas mortas por ano pelas
    tropas até 2019.
    O período moderno (após 2022) marcou uma forte
    guinada à estagnação: esse volume reduziu para patamares médios de
    590 suspeitos mortos em confronto anualmente (uma contração de
    quase -11%).
  2. Policiais Tombaram Menos: Por sua vez, a fatalidade cruzada — os
    próprios oficiais caídos em serviço na deflagração do dever — também
    registrou recuo de baixa margem. O sistema estadual costumava lidar
    com uma média de 18 oficiais mortos ao ano (unindo as cruzes da
    Civil e da Militar juntas pré-pandemia), um número que hoje
    estabilizou por volta de 14 funerais ao ano na SSP (queda de
    letalidade entre agentes de -20%).

O que se entende, portanto, é que a ascenção geral do perigo urbano
vivida pelos cidadãos comuns não foi traduzida pelo aumento da
tradicional troca de tiros de grande escala entre criminosos pesados e
os braços militares ostensivos, que tem ficado estatística e
consistentemente mais desengajada da guerra fatal letal a cada ano que
passa no Estado de São Paulo.